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BraulioTavares01

Page history last edited by galdino 11 years, 6 months ago

 

Bráulio Tavares é

 


Sai do Meio que lá vem o Filósofo (edição do autor, 1982) 

Braulio Tavares

Sai do Meio que lá vem o Filósofo (edição do autor, 1982) 
 

 

 

CAIS DO CORPO 

 

 

eles

que têm 
uma mulher 
em cada porto

 

elas 
que têm 
um homem 
em cada navio

 

(quente é o cais do corpo, 

 

quando o mar é frio)

 

 

 

OFÍCIO POÉTICO 

 

escreva no corpo dela 
         um poema 
      com seu pau.

     faça um poema 
       bem longo.

goze no ponto final. 

 

 

Poema da buceta cabeluda

 

A buceta da minha amada
tem pêlos barrocos, 
lúdicos, profanos. 
É faminta 
como o polígono-das-secas 
e cheia de ritmos 
como o recôncavo-baiano. 

A buceta da minha amada 
é cabeluda 
como um tapete persa. 
É um buraco-negro 
bem no meio do púbis 
do Universo. 

A buceta da minha amada 
é cabeluda, 
misteriosa, sonâmbula. 
É bela como uma letra grega: 
é o alfa-e-ômega dos meus segredos, 
é um delta ardente sob os meus dedos 
e na minha língua 
é lambda. 

A buceta da minha amada 
é um tesouro 
é o Tosão de Ouro 
é um tesão. 
É cabeluda, e cabe, linda, 
em minha mão. 

A buceta da minha amada 
me aperta dentro, de um tal jeito 
que quase me morde; 
e só não é mais cabeluda 
do que as coisas que ela geme 
quando a gente fode.

 

 

ESCRITO NO ESCURO 
 

Entre as negras paredes desta furna 
eu incrusto meu ser. Aqui sucumbo. 
Minhas asas, meus olhos são de chumbo, 
o meu corpo insensível é uma urna 
que encarcera a tarântula noturna 
do pavor ante o próximo minuto; 
um negror de pupila alastra o luto 
sobre as faces imóveis que me escutam 
(sobre os bichos, que, ávidos, disputam 
meus despojos de espectro prostituto).

Sempre isto, o Real: sempre o negrume 
de uma noite implacável e absurda 
onde a fauna das víboras chafurda: 
esse pântano mau de fel e estrume. 
Sempre isto, o que sonho: o ardente gume 
das visões imbecis que arquiteturo, 
pão de cinzas, trepada atrás do muro, 
cem fogueiras de sal no corpo inútil, 
gargalhada de onça, voz de bútio 
que prediz o terror do meu futuro.

Meus delírios que as frases não capturam. 
Meus lacraus cravejados-me na nuca. 
 

 

Minha mente-armadilha, uma cumbuca 
onde aranhas ferozes retorturam 
símias mãos que se arriscam, se aventuram 
a colher os seus grãos ou suas frutas. 
Vê, Razão: peias rotas e corrutas 
mal sustentam o monstro, ele é só músculos, 
os seus berros abalam os crepúsculos 
e despertam morcegos lá nas grutas.

(Eu sofreio-te as rédeas) Ah, Loucura, 
tu não vês que sou eu que te conduzo? 
(Mas não sou, sei que não, estou confuso, 
sei que é ela quem manda.) Esta procura 
de desvãos vulneráveis na estrutura 
do meu ser é em vão. (Não é: me oculto 
procurando fugir a cada vulto 
que a esconde.) Desiste: não me curvo. 
(Curvarei, sei que um dia, e estarei turvo, 
ressurreto, remorto e ressepulto).

 

O CASO DOS DEZ NEGRINHOS 
(romance policial brasileiro)

 

Dez negrinhos numa cela e um deles não mais se move. 
Manhã cedinho eles contam: e só tem nove.

 

Nove negrinhos fugindo; um deles, o mais afoito 
dançou — os guardas pegaram — fugiram oito.

 

Oito negrinhos trabalham de revólver e canivete; 
roupa cáqui vem chegando; correram sete.

 

Sete negrinhos seguiam pela rua de vocês. 
Um pai chamou a polícia; fugiram seis.

 

Seis negrinhos dão o balanço: bolsa, anél, relógio, brinco... 
houve um erro na partilha e viraram cinco.

 

Cinco negrinhos de olho na saída do teatro; 
um vacilou, deu bobeira, sobraram quatro.

 

Quatro negrinhos tormbando. Todos quatro de uma vez. 
Um deles o cara agarra — mas não os três.

 

Três negrinhos batalhando  feijão, farinha e arroz. 
Um deu-se mal: a comida... dava pra dois.

 

Dois negrinhos se embebedam de brama, cachaça e rum; 
discussão, briga, navalha... fica esse um.

 

E um negrinho vem surgindo 
do meio da multidão: 

por trás desse derradeiro 
vem um milhão.

 

A RESPOSTA DO COMPUTADOR

homem com mulher 
mulher com homem 
homem com homem 
mulher com mulher

homem e mulher 
com homem 
mulher e homem 
com mulher

sexo não tem sexo 
é quem gosta 
com quem quer.

 

ARTIGO DE FUNDO

Eu quero é a orgia! 
A safadeza! 
A indecência!

Deixo pros padres 
e pros militares 
                a continência!

 

 

 

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